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As encantadoras cerejeiras deixam a todos que as veem sem palavras. São tão pequenas e delicadas, de belas cores que vão do branco ao avermelhado, sendo as mais famosas as de tom rosa. Como resistem tanto às ações do tempo na época em que florescem? Pegam sol, chuva e até mesmo neve. São poucos dias de floração até caírem e fazerem um belo espetáculo de um tapete cor-de-rosa pelas ruas, rios e lagos. Nada é mais importante nessa época no Japão do que sair para admirá-las, tirar fotos com câmeras que parecem mais bazucas e fazer um piquenique com a família, amigos ou colegas de trabalho, o famoso hanami. Elas lembram como a vida é delicada e efêmera, mas também como se pode ser forte e superar os desafios.

Mas as sakura já passaram por grandes problemas e quase foram extintas por conta dos conflitos políticos durante a modernização do Japão. Elas já foram dadas como presente para aliados, serviram de adorno para kamikaze e foram vendidas indiscriminadamente, mas ainda assim conseguiram sobreviver e prosperar. Como isso tudo aconteceu?

As Cerejeiras na Era Edo

Entre 1639 e 1853, sementes e enxertos de cerejeiras, extraídos das espécies mais bonitas da árvore e de diferentes regiões do país, viajaram por todo o Japão durante a Era Edo (atual cidade de Tóquio). Das regiões montanhosas vieram as cerejeiras rosa-claro chamadas yama-zakura; da fria Hokkaido e do norte de Honshu, vieram as flores mais avermelhadas, as Ohyama-zakura; do Monte Fuji, vieram as delicadas flores brancas, as Mame-zakura; e das ilhas chuvosas de Izu, as grandes flores brancas da cerejeira que produz as famosas cerejas de Oshima.

Essa foi uma época pacífica depois de séculos de luta pelo poder entre diversas famílias no Japão. Na Era Edo, todos obedeciam a uma única família, a Família Tokugawa, onde cada lorde precisava ter uma residência. Por conta disso, quase todos os lordes presentearam as cerejeiras (selvagens e cultivadas) das suas regiões à Família Tokugawa. Assim, nos jardins de Edo, havia árvores de várias cores e jeitos, representando toda a diversidade da cultura, tradição, clima e população do país. Naquela época, por ter flores de diversos tipos, elas floresciam em épocas diferentes do ano com diferentes cores.

As cerejeiras também estavam sendo muito utilizadas para fins diplomáticos e domésticos. O portão para um jardim japonês da Japan-British Exhibition (1910) foi guardado por samurais debaixo de duas cerejeiras artificiais; o prefeito de Tóquio enviou várias cerejeiras para Nova York e Washington em agradecimento pela mediação dos americanos durante a Guerra Russo-Japonesa de 1904; no Japão, as flores ainda se tornaram inspiração para poesias, histórias e canções, romantizando a vida curta e simples que uma nação que estava frequentemente em guerra exigia de pua população.

Por conta disso, séculos de conhecimento botânico sobre as cerejeiras estava ruindo. Muitos dos antigos jardins aristocráticos onde as árvores eram cuidadas se transformaram em prédios, plantações de chá e arbustos de amoreiras (que eram usados para alimentar os bichos-da-seda, que por sua vez alimentavam uma valiosa indústria de exportação). Enquanto isso, com as pessoas mais preocupadas com o simbolismo do que com a natureza e a estética, a variedade invejável de cerejeiras selvagens e cultivadas estava perdendo terreno, literalmente, para as espécies mais resistentes e que cresciam mais rápido, as somei-yoshino.

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Hoje em dia, as cerejeiras de Tóquio são conhecidas pela sua sincronia enquanto florescem. Ao longo do Rio Arakawa, grandes fileiras de árvores ficam cor-de-rosa durante 8 dias todo mês de abril. Em harmonia, por todo o Japão, as cerejeiras florescem e morrem rapidamente, simbolizando a beleza da vida e como ela é passageira. Agora, as cerejeiras no Japão não tem uma grande diversidade, já que a maioria deriva de apenas uma espécie, as somei-yoshino, uma variedade cultivada com flores rosa que florescem nos galhos secos, sem folhas ou frutos.

Mas como e quando essa mudança aconteceu? Você vai conhecer a história de um otorrinolaringologista inglês que se tornou um especialista em cerejeiras, chamado Collingwood Ingram, que foi responsável por salvar diversas espécies de cerejeira japonesa que estavam fadadas à extinção.

Cerejeiras hanami
Imagem Divulgação (Unsplash)

Collingwood Ingram

Nascido em 1880 em uma família rica de Kent, Collingwood Ingram cresceu na Inglaterra e sempre teve paixão pela natureza, mesmo tendo se tornado um otorrino famoso. Ingram viajou algumas vezes para o Japão, onde se encantou pela beleza natural e as cerejeiras do país. Em sua última visita em 1926, sua intenção foi de coletar enxertos e sementes de diversas espécies de cerejeiras para o seu jardim em Kent.

Ingram era um colecionador de cerejeiras único, que sabia reconhecer as mudanças perigosas que estavam ocorrendo nas políticas do Japão. Entre as décadas de 1920 e 1930, as cerejeiras foram devastadas pelo Grande Sismo de Kanto, então elas foram substituídas por apenas um tipo de árvore, as somei-yoshino, que crescem rápido e são mais resistentes.

Prevendo a extinção de várias espécies – causadas por ideologias que poderiam levar ao assassinato do primeiro ministro, a militarização e a guerra – ele pegou o máximo de enxertos e sementes de várias espécies e as enviou para sua casa, chamada Grange, em Beneden, onde ele construiu um viveiro. Nas décadas seguintes, ele cuidou bem de mais de 100 variedades.

Na Inglaterra, Ingram liderou a Home Guard (organização de defesa do exército britânico durante a Segunda Guerra Mundial) de Beneden e ainda cuidou de suas cerejeiras. Enquanto ele estava na sua Terra natal, os sakuramori (pessoas que colecionavam e protegiam as cerejeiras) no Japão que sobraram lutavam para manter suas coleções de várias espécies, o que era um verdadeiro ato de traição durante a guerra. Sendo a 15ª geração de sakuramori, Toemon Sano arriscou sua vida por uma pequena coleção de variedades raras, incluindo uma que Ingram reintroduziu no Japão pouco antes da guerra. Ingram enviou vários extratos de taihaku para Sano e outro sakuramori, Masuhiko Kayama, mas esses extratos sempre morriam no meio do caminho. Finalmente, em 1932, um enxerto foi implantado em uma batata e chegou vivo.

Em Kent, Ingram continuou fazendo estaquias e enxertos da espécie Punus avium do Japão e de outras partes do mundo. No começo de 1930, seu jardim se tornou o lar para mais de 79 espécies de cerejeira, incluindo uma que parecia ter sido extinta no Japão, e que ele resolveu reintroduzir no país.

Durante a guerra, os esforços para preservar as espécies de cerejeira na Inglaterra e no Japão representavam o esforço de manter a relação de amizade entre a Inglaterra e o Japão durante os tempos difíceis, bem como um símbolo da diversidade e da paz que as cerejeiras já tiveram.

Cerejeiras hanami
Imagem Divulgação (Unsplash)

As Cerejeiras como Símbolo de Guerra

O que já foi o símbolo da paz e da diversidade da população, a vida curta das somei-yoshino virou um símbolo de uma população unificada e conformista antes e durante a Segunda Guerra Mundial, que daria a própria vida para o imperador. A morte de muitas espécies de cerejeira no Japão acabou coincidindo com a opressão e restrição da individualidade e a liberdade de expressão.

Assim como as flores das somei-yoshino que morriam rápido, os jovens homens japoneses tinham que crescer e seguir o imperador na guerra até a morte. Essa comparação é exemplificada em diversos poemas escritos por jovens pilotos kamikaze, que expressavam seus sentimentos do medo da morte certa. Eles tinham medo, mas não tinham opção, a não ser seguir as ordens. Por conta disso, os aviões desses jovens eram decorados com as flores da cerejeira, representando a morte prematura de muitos jovens durante esse período.

Nessa época, as cerejeiras estavam sendo muito utilizada tanto para fins diplomáticos quanto domésticos. O portão para um jardim japonês da Japan-British Exhibition (1910) foi guardado por samurais debaixo de duas cerejeiras artificiais; o prefeito de Tóquio enviou várias cerejeiras para Nova York e Washington em agradecimento pela mediação dos americanos na Guerra Russo-Japonesa de 1904; no Japão, as flores se tornaram inspiração para poesias, histórias e canções, romantizando a vida curta e simples que uma nação que estava frequentemente em guerra exigia de pua população.

Cerejeiras hanami
Imagem Divulgação (Unsplash)

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