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A temporada do Oscar 2021 nos presenteia com um filme de um gênero um tanto conturbado, o terror têm sido um tema muito questionável no cinema por suas produções repetidas e desgaste da fórmula, tanto que é difícil vermos outros subgêneros do terror sendo trazidos em tela, como por exemplo o terror psicológico, algo que não é difícil de explorar e mesmo assim é escasso, Estou Pensando em Acabar com Tudo trabalha esse subgênero com maestria, trabalhamos o imaginável com apenas algumas cenas e poucos diálogos, trabalhando várias camadas em forma de simbolismo os quais fatalmente derreterá seu cérebro e se perderá no filme.

O mais novo terror da Netflix é um filme de nicho, o terror psicológico desenvolve em uma trama muitas vezes confusa, mas se ligar cada ponto trabalhado em acontecimentos e diálogos, vai se montando a bomba que explodirá sua cabeça, gerando questionamentos e reflexões que mantém viva na sua memória, essa que exalta tal produção, em contra ponto existe as pessoas com mentes mais “infantis” que não conseguem ver simbolismos, não têm paciência para filmes assim, terminam de assistir e gritam que é uma porcaria porque não entendeu nada. Entre esses dois polos, existem os “muretas”, conseguiram interpretar os símbolos, mas não conseguiram ligar todos os pontos e por isso se confunde sobre o conjunta da obra, muitas vezes o grande ponto do terror psicológico é a discussão pós filme, seja grandiosa ou um desastre, o filme alcança seu objetivo.

Nós conseguimos imaginar como seria nossa vida com outra pessoa, no caso um namorado/a, como seria uma vida de casado, tendo filhos e outras vivências, mesmo que essa pessoa nem fale com a gente, tipo aquelas fanfics que criamos na cabeça com alguma celebridade ou alguém que vimos no ônibus, esse filme trabalha mais ou menos isso.

Um casal viaja para o interior para que ela conheça seus sogros, e na viagem de ida e de volta conversam sobre assuntos aleatórios, apesar dessa ser a base do roteiro, a trama é muito mais densa. Ao decorrer das cenas, temos mudanças físicas dos personagens, de uma mãe jovem até um pai sofrendo de Alzheimer, e ao decorrer as mudanças vão sendo mais drásticas, a ponto de vermos a protagonista trocar sua profissão e até sua formação acadêmica; pode-se entender que vemos o nascimento de um casal com a vivência do outro, ao mesmo tempo pode ser o mesmo casal de adolescentes que chegaram na casa, como também pode ser imaginação da protagonista de como seria uma vida com esse namorado, todo tipo de interpretação é possível e que o conceito é explorar o quanto mudamos com o tempo, engordamos, emagrecemos, amarguramos, adoecemos e assim por diante, por isso a diferença gritante de atores, não precisa ser o mesmo ator maquiado de velho.

O genial é que os inúmeros simbolismos te faz tentar ligar todos os pontos e pode sim te fazer enlouquecer e se enrolar com tanta coisa, mais por causa da construção técnica do que o roteiro em si, isso não é um ponto falho, é um marco bem presente em terror psicológico, o jogo de cenas com simbolismos grandes e pequenos, diálogos largados ou amarrados, fotografias escuras e iluminadas brincam com sua cabeça para que você pense sobre tudo que está sendo mostrado e te confunda ao tentar interpretar o filme. Em Estou Pensando em Acabar com Tudo é feito magnificamente, porque pode quebrar seu raciocínio e o que poderia ser a desistência de assisti-lo, se mantém curioso e te mantém preso porque não existe a mínima possibilidade de você não conseguir ligar alguns simbolismos antes da metade do filme, ascendendo o seu interesse à conclusão da trama e seu significado, seja lá qual for a conclusão de cada um, fazendo dessa linguagem difícil um pouco mais amaciada para mentes menos pensantes.

Contudo não significa que não existem momentos um tanto confusos, com um final  destoante a ponto de quebrar totalmente a imersão do filme e decepcionar-se com a obra; varia muito do emocional de cada um, no meu caso não me causou grandes frustrações, mas senti que boa parte do arco final poderia ter sido cortado, ou melhor apresentado, entregar no formato de musical pareceu mais uma referência ao gosto do personagem do que mostrar alguma coisa mais indiretamente, talvez o conjunto da obra fez com que tudo fosse mais exaltado do que criticado, mas é um ponto que pode sim nos tirar do filme facilmente.

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Charlie Kaufman, o diretor de Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembrança, entregou uma obra prima do terror psicológico que frustra na reta final, mas não condena toda reflexão e discussão de Estou Pensando em Acabar com Tudo. O filme é para um nicho de gênero e vai sofrer críticas por quem não gosta de longas mais densos, mas o mesmo mantém esperanças do gênero terror brilhar de novo na sétima arte. Não duvido passar desapercebido na temporada do Oscar.

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