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Dando continuidade a saga do detetive John Blacksad, Alma Vermelha é o terceiro volume da série em quadrinhos de Juan Díaz Canales e Juanjo Guarnido, Blacksad, publicado por aqui pela SESI-SP.

Na trama, temos John encontrando-se com Otto, um antigo professor e que agora gostaria de reativar seus laços de amizade. Entretanto, colocado por acaso (ou não) em uma teia de conspirações, Blacksad busca respostas a atentados e perseguições políticas em meio aos anos 50.

Mais uma vez temos um roteiro amarrado e de certa forma complexo, onde é possível se perder em ideias caso tenha devaneios durante a leitura. De forma a tratar de assuntos complexos e do século passado, temos um quadrinho de nicho riquíssimo, mas que entra em um contraponto para leitores mais “jovens” e não habituados pela temática.

A pós-guerra / Liberdade / Guerra Fria

O cerne deste volume é o período pós segunda guerra mundial, enfatizando Alemanha, Rússia e Estados Unidos como países protagonistas e que dão o rumo a história. John Blacksad é a força motriz que liga personagens destas três nações e traz um contexto ideológico, político, atentados terroristas, assassinatos, jogos de azar e até mesmo o suicídio.

Logo de cara temos ciência de que é o quadrinho mais pesado (entre os três primeiros) e a ação fica um pouco de lado, dando um aporte maior para as questões psico-filosóficas que os autores buscam. Na verdade, isto é presente desde o primeiro volume, mas é aqui que este tipo de conteúdo fica mais evidente.

Um ponto que gostaria de ressaltar é o plano de fundo da população e de como trazem muito bem o contexto da fobia à guerra, do medo de um “novo holocausto” e do fantasma da Bomba H, o que seria o mais próximo de um “Apocalipse” naquela época. Por sinal, citações bíblicas e referências é o que não falta em Alma Vermelha. 

Cheio de homenagens (ou referências), sendo elas de personagens históricos, pintores ou letras de músicas, Canales transpassa credibilidade em abordar como poucos a vivência das relações com as personagens; de diálogos inteligêntes, lutas e até mesmo no sexo. Mais uma vez, é como se estivéssemos lendo um filme – de um bom diretor, obviamente.

Perdas e Arrependimentos

Já na outra metade criativa, Guarnido abusa das cores mais quentes e fortes neste volume, e temos um notável apreço pela feição dos personagens antropomórficos; é nítida sua evolução em dar mais “vida” aos gestos animalescos. Ressalto que ele já fazia isso muito bem!

Já no âmbito dos design de personagens, pela primeira vez senti que um ou outro não encaixaram perfeitamente na história. Lembre-se: temos personagens antropomórficos, e o encaixe com a realidade não é simétrico com o contexto do roteiro. Entendemos que o “nível” de criatividade dos autores é gigantesco, e querer manter o mesmo nível em todas as histórias é querer demais da nossa parte.

Dito isso, algumas passagens e cenas não tiveram um apego tão forte durante a leitura – o que até contrasta em certos momentos de tensão – o que deixou a leitura um pouco truncada. O ritmo não é frenético, visto pela temática abordada, mas mesmo assim, é uma leitura um pouco mais arrastada que os dois primeiros volumes e traz uma resolução um tanto “rápida” demais para um contexto de tal profundidade.

Para concluir, Alma Vermelha ainda é uma ótima leitura e traz questões ainda em evidências nos dias de hoje. Com certeza, o mais pesado até então e que ainda dá uma “fome” tremenda para novas aventuras de John Blacksad.

Título: Blacksad Vol. 3
Autor: Juan Díaz Canales
Ilustrador: Juanjo Guarnido
Tradução: Antônio Xerxenesky
Editora: SESI-SP
Páginas: 64
Ano: 2018
ISBN: 9788550406596

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